sexta-feira, 2 de setembro de 2016

CHINESES ACOSTUMADOS COM LULA E DILMA DESCONFIAM DE MICHEL TEMER


O chinês prima muito pela relação de confiança e possui o hábito de querer conhecer o profissional de forma pessoal, e é comum questões como se você é casado e se tem filhos, bem como o porquê, caso as respostas sejam negativas. Para os chineses é importante conhecer esse aspecto íntimo do futuro parceiro de negócios.

关系 GUANXI: Esta é uma palavra pra indicar o relacionamento entre pessoas baseado na confiança, é um tipo de responsabilidade com o outro. Com um bom Guanxi na China, pode-se conseguir bons negócios. Ou seja, o chinês prefere fazer negócios com uma pessoa indicada por outra pessoa de confiança, do que com uma pessoa que não tem qualquer histórico.

Fiz esta introdução com dicas sobre os chineses para contextualizar a notícia sobre a viagem de Michel Temer para o país asiáticos e assim o leitor poderá entender melhor os motivos da apreensão chinesa causada pelo impeachment.

Os chines não constroem uma relação comercial da noite para o dia, é preciso muito tempo e troca de informações para o passo seguinte. E no caso concreto, os 14 anos de negociação com os governos de Lula e Dilma consolidaram a relação Brasil-China e dessa relação, junto com Índia, Rússia e África do Sul, nasceu os Brics. E em julho de 2015 o bloco de países criou seu próprio banco de fomento, o NBD (Novo Banco de Desenvolvimento). Na ocasião da assinatura do memorando para criação do banco, Dilma observou que, até 2020, os países em desenvolvimento precisarão de um volume de investimento em infraestrutura superior a US$ 1 trilhão por ano. “Atingir essa cifra não será tarefa simples. O investimento externo mundial caiu quase 50% nos últimos cinco anos. É nesse cenário que o novo banco de desenvolvimento terá um papel importante na intermediação de recursos para projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em nossos países e, posteriormente, em outros países em desenvolvimento”.

Temer na China

Do G1 – Em meio a certa cautela internacional quanto ao processo de impeachment que derrubou o governo de Dilma Rousseff, o presidente Michel Temer, agora confirmado definitivamente no cargo, embarcou para a China, onde participará nos dias 4 e 5 de setembro do encontro do G20 – grupo das maiores economias do mundo.

É fácil entender sua pressa nos últimos dias para encerrar o julgamento. De um lado, a ocasião dá a Temer um palco de destaque para sua estreia internacional, já que estarão presentes no encontro os líderes mais importantes do mundo, como o presidente americano, Barack Obama, e a nova primeira-ministra britânica, Theresa May.

Sob o comando do Partido Comunista desde 1949, o governo chinês não costuma interferir em questões de política interna de outros países. Mesmo antes de concluído o julgamento de Dilma, já estava cofirmado um encontro entre Temer e o presidente Xi Jinping, para 17h desta sexta-feira, em Hangzhou, cidade próxima a Xangai onde ocorrerá o G20.

Premiê britânica Theresa May, participará de encontro do G20 (Foto: Tobias Schwarz / AFP)

Apreensão chinesa

Não que o processo de impeachment tenha sido visto com tranquilidade pelo governo chinês, acredita Evandro Menezes de Carvalho, professor de direito internacional da Fundação Getúlio Vargas, que visita com frequência o país.

Pelo contrário, a mudança causou apreensão, já que Pequim tinha construído uma boa relação com Brasília durante os governos petistas, inclusive com a criação dos Brics – grupo de grandes nações emergentes que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – e o fortalecimento do G20, ainda no governo Lula. Leia a íntegra:

No entanto, consumada a troca de governo no Brasil, o foco agora é reconstruir a boa relação, observa Carvalho. Ele, que já atuou como professor visitante na Fudan University, em Xangai, conta que tem sido constantemente questionado pelos chineses sobre o novo governo.

“Estive lá em agosto e era muito evidente por parte da academia e algumas pessoas de governo a curiosidade em saber qual vai ser o direcionamento da política externa de um eventual governo Temer”, disse à BBC Brasil, pouco antes de o Senado concluir o julgamento de Dilma.

“Eles estão preocupados em entender como se relacionar [com a nova administração]. Então essa é uma pergunta que me faziam muito: o Temer vem ou não vem? Vem com quem? Como são as pessoas? Do que eles gostam? Como a gente trata? Há uma preocupação de estabelecer um canal de diálogo, uma boa relação imediata, sem deixar que questões políticas-ideológicas interfiram na estratégia de relacionamento”, acrescentou.

Comitiva

Acompanham Temer na viagem o presidente do Senado, Renan Calheiros, e os ministros José Serra (Relações Exteriores), Henrique Meirelles (Fazenda), Blairo Maggi (Agricultura) e Maurício Quintella (Transportes).

Carvalho observa que a troca de governo através do impeachment acabou afetando as conversas nos últimos meses. Inclusive o Brasil teria sido pouco atuante nas reuniões preparatórias para o G20, já que ficou algumas semanas sem embaixador, devido à substituição de Roberto Jaguaribe por Marcos Caramuru.

Dilma Rousseff deixou o poder após decisão do Senado (Foto: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

“A mudança de governo, tal como está se dando, preocupou o governo chinês e de certo forma impactou nas relações. Eles já estavam acostumados, já tinham estabelecido a base de uma relação que perdurou quase 14 anos com governos do PT, onde teve de fato uma série de iniciativas, sobretudo nos anos Lula”, nota o professor.

Foi, por exemplo, já no segundo ano da administração petista, 2004, que houve a criação da Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação), o que elevou a relação entre os dois países ao status de “parceria estratégica global”.

Carvalho nota que a China considera importante a relação com outros países emergentes e que não trata essas nações da mesma forma que as potências europeias e os Estados Unidos.

O governo chinês, inclusive, valoriza muito o G20 (em contraponto ao mais restrito G7) e fez pesados investimentos de infraestrutura para a realização da cúpula em Hangzhou. Com objetivo de reduzir a poluição e o trânsito, mandou fechar fábricas próximas da cidade e decretou feriado durante o evento.

“Existe uma questão geopolítica, uma apreensão chinesa, para entender bem como vai ser esse novo governo brasileiro na relação com os Estados Unidos. E se isso vai ou não afetar os interesses chineses”, observa o professor.

“É uma questão que parece estar subentendida nas perguntas que me fizeram bastante: se os negócios chineses vão ser prejudicados em função do que supostamente eles atribuem a uma proximidade maior do perfil do governo Temer com os Estados Unidos”, ressaltou.
Durante o G20, também estão previstos encontros bilaterais de Temer com os governantes de Itália e Espanha no dia 5. Reuniões com Árabia Saudita e Japão ainda estão sendo negociadas.

O presidente também se reunirá no dia 3 com o diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, o brasileiro Roberto Azevêdo, que foi eleito para o cargo com apoio do governo Dilma.

‘Maior parceiro’

A China desde 2009 é o maior parceiro comercial do Brasil, comprando principalmente matérias-primas, como soja e minério de ferro, e nos vendendo produtos industrializados.

Dessa forma, o foco da conversa de quarenta minutos entre Temer e o Xi Jinping será a economia. O presidente brasileiro deve priorizar três temas:

Temer deve falar ao presidente chinês sobre as reformas que pretende implementar no país para promover o ajuste fiscal, assim como apresentar oportunidades de investimento dentro do plano de concessões que está sendo elaborado para a área de infraestrutura.

Há expectativa de que Xi Jinping convide Temer para retornar ainda este ano à China para uma visita de Estado. Nesse tipo de encontro, diferentemente da reunião durante o G20, o presidente iria com uma grande comitiva de ministros e empresários para uma série de encontro entre as autoridades dos dois países.

Da parte da China, há grande interesse em construir uma ferrovia transoceânica ligando o Atlântico e o Pacífico, através do Brasil e do Peru, para baratear seu comércio com a América Latina.

Gigantesco, o projeto ainda está longe de sair do papel. Devido à diferença de bitolas dos trilhos de Brasil e Peru, exigiria a construção de um enorme centro de conexão no meio da floresta amazônica, com relevante impacto ambiental.





Nenhum comentário:

Postar um comentário