domingo, 18 de setembro de 2016

Paralimpíadas: Organizadores acusam indígenas de “infanticídio, abuso sexual, estupro, escravidão e tortura”

Faltaram acusar os indígenas de fabricarem bombas de destruição em massa!

 15 de setembro de 2016     Combate Racismo Ambiental 

Em um comunicado oficial, os organizadores dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 acusaram os povos indígenas do país de infanticídio, abuso sexual, estupro, tortura e outras “práticas tradicionais nocivas,” causando indignação ao redor do mundo.
Os organizadores também apoiaram a “Lei Muwaji,” um projeto de lei que está sendo promovido por missionários evangélicos como forma de separar famílias indígenas.
Citando o caso de Iganani Suruwaha, uma menina indígena com paralisia cerebral cuja mãe fugiu de sua comunidade para uma missão evangélica, o comunicado de imprensa afirma:
“Em agosto de 2015 a Câmara dos Deputados aprovou a ‘Lei Muwaji,’ que visa combater práticas tradicionais nocivas em comunidades indígenas – como infanticídio ou homicídio, abuso sexual, estupro individual ou coletivo, escravidão, tortura, abandono de vulneráveis e violência doméstica.”
O projeto de lei Muwaji autoriza as autoridades a tirar crianças indígenas de suas famílias e requer que todos os membros de uma comunidade indígena informem às autoridades sobre qualquer mulher grávida em “situação de risco.” A lei se aplica a todos, incluindo futuros pais e outros membros da família. Todos aqueles que não notificarem sobre uma gravidez cometem um crime pelo qual podem ser processados.


Um jovem Suruwaha com seu rosto pintado, Brasil. © Armando Soares Filho /FUNAI /Survival


A mãe e o pai aparentemente têm poucos direitos nesse processo. O projeto de lei não permite que eles contestem judicialmente a potencial decisão de oferecer sua criança para a adoção, uma vez que esta tenha sido tomada deles. Não lhes dá o direito de serem informados sobre onde sua criança será levada, ou de receber qualquer informação sobre ela, ou mesmo de manter qualquer relacionamento com ela.
Em uma conferência sobre o tema, organizada pela UNICEF em 2009, um indígena brasileiro disse: “O projeto de lei é uma lei racista porque não registra e nem menciona que os não índios matam em número muito maior as suas crianças. Se o crime dos brancos é maior em quantidade que o crime dos índios porque somente se promulga uma lei contra os índios? Os brancos nos matam e não são presos. Estamos frente a uma lei racista: nossos assassinos não são incriminados por uma lei específica, e nós, sim.”
Relatos exagerados de infanticídio e outras práticas são usados há tempos para enfraquecer os direitos dos povos indígenas. Em sociedades industrializadas, no entanto, tais práticas ocorrem com a mesma frequência, ou são até mais recorrentes.
Muitos temem que a posse do novo governo implica em retrocessos nos avanços e nos direitos dos indígenas no Brasil. Há alguns meses, o Ministério da Justiça anunciou a suspensão de ações relativas a direitos humanos até o fim do ano, o que inclui a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), entidade vinculada ao ministério. Além disso, segundo proposta do governo Temer, estima-se um corte ainda maior no pequeno orçamento dedicado a programas relacionados aos direitos indígenas em 2017.
O diretor da Survival, Stephen Corry, disse: “Os organizadores das Paralimpíadas apresentaram os indígenas como monstros cruéis e desumanos, no espírito do desprezo colonialista do século 19 de ‘selvagens brutais.’ Na realidade, povos indígenas são retratados assim simplesmente porque suas vidas comunais são diferentes. É claro que alguns indígenas, algumas vezes, são culpados de atos de terrível brutalidade mas isso é, obviamente, não mais do que os cometidos por não-indígenas. A Lei Muwaji representa uma tentativa orquestrada de missionários fundamentalistas para difamar os indígenas como assassinos de crianças, facilitando o roubo de suas crianças.”
Pai e filho Suruwaha, Brasil. Missionários evangélicos acusaram falsamente a tribo de infanticídio em diversas ocasiões. © Adriana Huber/Survival.
***
Abaixo, o texto do Comitê apresentando a menina indígena portadora da tocha:
Iganani Suruwaha – A indiazinha nasceu na Amazônia, na tribo Suruwahá, com paralisia cerebral. Sua mãe, Muwaji Suruwahá, precisou fugir da aldeia para evitar o infanticídio indígena. A criança, por não andar, estava condenada à morte por envenenamento em sua própria comunidade. A prática cultural que não é considerada crime pelas leis brasileiras. Hoje, Iganani tem 13 anos e em agosto de 2015 a Câmara dos Deputados aprovou a “Lei Muwaji”, que visa combater práticas tradicionais nocivas em comunidades indígenas – como infanticídio ou homicídio, abuso sexual, estupro individual ou coletivo, escravidão, tortura, abandono de vulneráveis e violência doméstica – e garantir a proteção de direitos básicos dos indígenas.”


Nenhum comentário:

Postar um comentário